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A jornada da obstetra: da residência intervencionista ao parto humanizado em equipe

Por Karina Fernandes Trevisan10 min de leitura

Era a última sessão de O Renascimento do Parto no cinema do Frei Caneca, em São Paulo, numa tarde. Camila Escudeiro, médica obstetra, sentou na última poltrona e chorou do começo ao fim do documentário.

Eu soluçava, porque eu falava: eu não acredito que eu fiz tudo isso com essas mulheres.

Ela saiu do cinema com uma decisão. Tinha uma cesárea agendada, marcada para o dia do aniversário da avó do bebê, e ela seria a última que faria sem indicação. Depois do parto, a própria paciente disse que não tinha gostado da cesárea, mesmo tendo sido informada de tudo antes. Engravidou de novo, teve parto normal, e é paciente da Camila até hoje.

A história é do terceiro episódio do PartoCast, em que Karina Trevisan conversa com a Camila, parceira de parto há mais de uma década, sobre a jornada da obstetra. É a história de uma médica que saiu de uma residência intervencionista e aprendeu, na prática e estudando, a assistir parto de outro jeito. E é, sobretudo, uma conversa sobre equipe.

"Eu só segurei o bebê"

Camila queria ser pediatra. Não tinha médico na família, mas aos 11 anos acompanhou o transplante renal da mãe e nunca esqueceu o residente que não saía do lado dela, que às vezes nem almoçava. "Que bom que tinha alguém para cuidar de você. Eu também vou querer cuidar das pessoas."

O que a desviou da pediatria foi um parto. No estágio de ginecologia, ainda estudante, ela acompanhou uma mulher que já tinha outros filhos. O bebê nasceu num puxo só, e tudo o que a Camila fez foi segurá-lo.

Quando ele estava nos meus braços, eu falei: nossa, como isso é lindo.

Ela começou o curso fora do Brasil, onde a família morava, num hospital em que o parto normal era a regra. De um lado da enfermaria ficavam as puérperas de parto normal; do outro, as poucas de cesárea. "No dia que tinha uma cesárea, todo mundo queria ver." Quando chegou à pediatria, percebeu que sofria demais com a doença das crianças. Escolheu a ginecologia e obstetrícia.

Uma residência sem parto humanizado

A residência foi no Hospital Municipal do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, numa das primeiras turmas do programa. Os residentes faziam de tudo, e ela aprendeu muito. Mas terminou em janeiro de 2011 sem nenhuma formação em parto humanizado. O único contato com outra forma de assistir foi a chegada das primeiras enfermeiras obstetras ao cenário de parto, trazidas por um programa do governo.

Anos depois, a Camila voltou à mesma residência para dar uma aula sobre parto humanizado. Os residentes se surpreenderam e várias a procuraram no fim. "Eu gostaria que alguém tivesse feito isso na minha residência."

Para a Karina, o problema começa na formação: a medicina ainda ensina o médico a decidir e a atuar sozinho, e não a dividir a assistência com outros profissionais.

O encontro no pré-natal

As duas se conheceram num serviço de pré-natal em Guarulhos, com uma taxa de cesárea altíssima. A Karina fazia as consultas de enfermagem, já tinha atendido parto domiciliar e começou a puxar conversa sobre parto com alguns médicos na salinha. A Camila foi uma delas.

Quando uma gestante pediu à Karina que a acompanhasse num parto normal no hospital, faltava um médico. A Camila aceitou. Com um pediatra que também precisou ser convencido de que quem pode pagar pela assistência também merece uma assistência respeitosa, formaram o que a Karina descreve como a primeira equipe de parto humanizado da zona leste de São Paulo.

No primeiro parto, a obstetra ficou sentada no sofá, olhando, enquanto a enfermeira fazia manejo com a mulher: agacha, levanta, agacha, levanta. A Karina lembra o que aquilo significava:

Ela tinha acabado de sair de uma residência intervencionista. E ela se disponibilizou a olhar para isso.

Depois vieram os livros emprestados, os cursos de assistência ao parto normal e de emergências obstétricas, e a decisão de se preparar de verdade.

Sustentar com evidência na mão

Quem trabalha com parto humanizado dentro de instituições conhece a pressão: reunião com coordenação, gerente questionando conduta, conversas paralelas no corredor. A Karina pergunta como a Camila sustentou tudo isso.

A resposta é de temperamento e de método. A Camila se define como mais estável do que a amiga — "diferente da Cá, que é mais explosiva" — e escolheu argumentar. O protocolo do hospital pode ser outro, mas diante de uma recomendação da Organização Mundial da Saúde, como as recomendações para uma experiência positiva de parto, a conversa muda.

Se você tem ali tudo dentro de um protocolo da Organização Mundial da Saúde, quem que vai falar contra isso?

Isso exige estar bem estudada. E o resultado apareceu com o tempo. Antes eram as conversinhas paralelas; hoje chamam a dupla para ajudar, e outros profissionais passaram a se inspirar no trabalho delas.

Acolher não é zerar cesárea

Uma das partes mais fortes da conversa é sobre indicação. A Camila conta o caso de uma paciente que tinha vivido uma perda grave num parto anterior, com outra equipe, e chegou ao consultório com uma pergunta: "Doutora, se eu entrar em trabalho de parto, você vai me forçar?"

Não forçou. Explicou as opções, os prós e os contras, e respeitou a escolha. A cesárea foi agendada, com música e com a impressão da placenta que a mulher tinha de todos os outros filhos. Houve quem estranhasse no hospital que justo a Camila estivesse fazendo uma cesárea eletiva. A resposta dela é uma régua para qualquer profissional do parto:

Eu não quero, no final do ano, chegar lá e falar: eu tive zero cesáreas. O que faz sentido para mim é ter acolhido uma mulher.

A Karina completa: indicação emocional também é indicação, e não dá para ignorar. Ela mesma já acompanhou partos normais de mulheres que tiveram maus desfechos em gestações anteriores. Nos dois casos, o princípio é o mesmo: a equipe leva a informação, e quem decide é a mulher, ou o casal.

Quando a mulher pede cesárea

E quando a mulher chega pedindo cesárea sem nenhuma indicação? A Camila conversa. Explica o que é um parto normal e o que é uma cesárea, e a diferença entre o parto normal cheio de intervenções que a mulher costuma ouvir nos relatos e um parto com assistência respeitosa. Na experiência dela, quando a mulher tem informação e apoio, a maioria se prepara para o parto normal e tem um parto normal.

O que ela critica é outra coisa: o médico que diz durante todo o pré-natal que vai acompanhar o parto normal e, no fim, inventa uma indicação de cesárea. "A mulher sabe, ela percebe." Para a Camila, é mais honesto o médico que diz com clareza que não acompanha parto normal, porque aí a mulher pode procurar outro profissional. Muitas das pacientes que chegam ao consultório dela são justamente mulheres que tiveram uma cesárea desnecessária e agora querem parir. "São os partos mais lindos. Elas têm uma garra tão grande."

Uma equipe desde o pré-natal

A virada, para a Camila, foi entender o papel da enfermeira obstetra. Hoje todas as pacientes dela passam por consultas com as enfermeiras durante o pré-natal, fazem preparo com fisioterapeuta pélvica, são incentivadas a ter doula, consultam a pediatra ainda na gestação e conversam com o anestesista.

Eu tenho uma abordagem, a enfermeira tem uma abordagem, a doula tem outra abordagem, e isso vai juntando informações para essa mulher, e ela se sente mais segura.

Sobre a enfermeira, ela faz questão de corrigir a própria palavra. No papel, a enfermeira entra como auxiliar; na prática, é parceira. "Na hora do parto, todo mundo é igual, todo mundo participa dessa equipe." A Karina dá o exemplo do próprio parto: sabia que o bebê era grande e combinou com a enfermeira obstetra da equipe que, se houvesse distócia de ombro, quem faria a manobra seria ela. Houve, e foi o trabalho da equipe, com a Camila, que resolveu.

Também mudou a relação com a anestesia. No começo, a obstetra e a enfermeira ficavam de mãos dadas torcendo para a mulher não pedir analgesia, porque não sabiam como o anestesista iria conduzir. As duas lembram de um anestesista que atendeu uma mulher com um centímetro de dilatação, respeitou o pedido dela e acompanhou o parto sem interferir. Hoje há anestesistas que ajudam o parto, e isso tirou um peso da equipe.

Parto pélvico e backup domiciliar: estudar antes

O primeiro parto pélvico que as duas atenderam juntas teve um período expulsivo que a Karina não esquece. Depois dele, a Camila foi estudar: oficinas em congressos, o trabalho do obstetra alemão Frank Louwen, que tem um centro de parto pélvico em Frankfurt, artigos, e outras abordagens depois. Com o estudo e a prática, veio a confiança — e outros médicos começaram a chamá-la para acompanhar pélvicos junto. A versão cefálica externa entrou no mesmo caminho.

Se a gente não estuda, a gente não sabe o que tem que fazer. E aí a gente não sustenta.

O mesmo vale para o parto domiciliar. A Camila gosta de ser backup, mas escolhe as equipes: precisa conhecer quem vai atender, confiar na experiência delas, acompanhar o pré-natal junto e conhecer a gestante. Com paciente certa, equipe experiente e planejamento feito, ela quase nunca é acionada. E, quando há transferência, o parto normal continua no hospital. A Karina reforça o alerta: tem muita gente se aventurando sem preparo, e isso vale para qualquer profissional, médico incluído.

Ninguém dá conta de tudo sozinho

A equipe multi não é só melhor para a mulher. É o que protege quem assiste. A Karina fala do obstetra que acha que precisa resolver sozinho toda e qualquer situação:

É lógico que vai dar burnout. Se eu sou a única pessoa capaz de resolver tudo, não vai dar.

Ela conta que precisou se afastar da assistência por um tempo, justamente pelo desgaste, e voltou com reposicionamentos. O lema agora é "Karina sem atos heroicos": preparar, orientar e trabalhar com uma equipe alinhada, em vez de tentar salvar sozinha o que não foi planejado.

Aprender a cobrar

A última parte da conversa é sobre um assunto que quase ninguém ensina: cobrar pelo próprio trabalho. Uma equipe particular tem custo, e as duas lembram que as pessoas financiam casa e carro, mas esperam que o plano de saúde resolva o parto. Numa assistência em equipe há um médico e uma enfermeira dedicados à mulher, e não um plantonista olhando o cenário inteiro.

Do lado de quem atende, a dificuldade é outra. Profissionais de saúde foram formados para fazer o bem, e vender um serviço de cuidado parece errado. A Camila precisou estudar venda, oratória e administração de consultório para aprender a se posicionar. A Karina admite que tem a mesma dificuldade, e que aumentou o valor dela aos poucos, lidando com a sensação de rejeição a cada "não".

Por que vai contratar a Camila Escudeiro? Por que vai contratar a Karina Trevisan? Por conta de uma experiência profissional. Uma diferenciação.

A Camila também conta o medo de sair da CLT. Fazia plantão em hospitais do SUS, que ela diz amar, mas não conseguia estar disponível para as próprias pacientes presa a escalas de 12 e 24 horas. O conselho dela para outros obstetras é direto: se você gosta do que faz, estuda e se prepara, vá. Há renúncias, mas a balança fecha positiva.

O que fica

A jornada da Camila vai de uma residência que não ensinou nada sobre parto humanizado até uma prática em que a enfermeira, a doula, a fisioterapeuta, a pediatra e o anestesista entram desde o pré-natal. No meio disso, estudo, muito estudo, e uma parceria que dura mais de uma década.

A ideia que atravessa a conversa inteira é a mesma dos episódios anteriores: ninguém assiste parto sozinho. Quando cada profissional ocupa o próprio lugar, a mulher fica mais segura e quem assiste também.

Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.

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