A jornada da doula: o que ela faz no parto, o que não faz, e por que ela é da mulher
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Casa de Parto de Sapopemba, zona leste de São Paulo, outubro de 2010. Amanda Mesquita tinha acabado de parir o primeiro filho. Já alimentada, com o bebê no colo, atravessava o corredor a pé em direção ao quarto de repouso quando viu uma mulher sozinha, em trabalho de parto induzido, pendurada, urrando de dor.
Ela entregou o filho ao pai. Foi até a mulher, abraçou, e quando veio a contração agachou no chão junto com ela. Disse uma frase só:
Tá tudo bem, eu tô te vendo.
Durou duas contrações, talvez uma. Amanda ainda estava zonza do próprio parto, e o companheiro a levou de volta para o quarto. Quase um dia depois, de madrugada, ela ouviu a ambulância saindo com aquela mulher para o hospital.
Meses mais tarde, numa roda de mães em Santo André, Amanda contava essa história quando uma das mães começou a chorar. Perguntou a data de nascimento do filho dela. Seis de outubro. "Essa mulher sou eu", disse a mãe. "E eu também lembro do seu rosto."
Foi ali que a arquiteta decidiu virar doula. Saiu do encontro com o celular na mão, pesquisando o curso. E a primeira assistência completa que fez como doula foi o segundo parto daquela mesma mulher.
Da arquitetura à doulagem
Amanda é arquiteta de formação, e não do tipo que fica no escritório: trabalhava com urbanização de favelas, em projetos sociais. Já era professora de yoga. E, como tanta gente, achava que parto era algo que simplesmente acontecia — você entra em trabalho de parto e pare.
O pré-natal desfez essa ideia. Ela passou por vários médicos, e quando perguntava sobre parto recebia respostas vazias: é cedo para falar disso; mulheres não parem mais hoje em dia; olha o seu tamanho, o seu bebê não vai passar.
O que mudou o rumo foi um presente de duas amigas: um curso de preparação para o parto, de um fim de semana, para ela e o companheiro. Ali ela ouviu falar de fisiologia do parto, do papel de cada profissional na cena — e da doula.
Eu era uma Amanda na sexta-feira. No domingo, eu era outra Amanda.
Saber o que podia acontecer, e os caminhos que o parto podia tomar, deixou Amanda tranquila a ponto de, no meio do trabalho de parto, querer ficar em casa e parir no chuveiro. A doula dela vetou na hora: sem planejamento, não. A Karina completa com uma ideia que vale para a equipe inteira: preparar a mulher para o que ela vai encontrar é trabalho de todo profissional do parto, não só da doula. Clareza, ali, é cuidado.
Da CLT ao trabalho autônomo
A transição não foi de uma hora para outra. Amanda fez o curso de doula em 2011, depois a formação de educadora perinatal, se especializou em yoga para gestantes, e por um tempo conciliou o emprego com as aulas e as rodas de gestantes. Só saiu quando essas atividades passaram a sustentar boa parte da renda. Depois vieram rebozo, aromaterapia, fitoterapia, medicina de placenta — ela nunca mais parou de estudar.
Sobre dinheiro, a conversa é franca. Quem sai da CLT para o trabalho autônomo precisa aprender a divulgar o próprio trabalho, porque o público do parto se renova o tempo todo. "Quem me conhece já pariu", resume a Karina. A saída da Amanda foi ter várias frentes que convergem no mesmo cuidado — acompanhamento de parto, cursos, consultorias de educação perinatal — e trabalhar em parceria com outros profissionais, que se indicam uns aos outros.
"A doula é da mulher"
É aqui que a conversa esquenta. A Karina provoca: tem quem queira ser "a doula do médico", a doula que faz parte da equipe de alguém e chega indicada junto.
A resposta da Amanda é o centro do episódio:
A doula é da mulher. A doula não é do médico, nem da enfermeira, nem da fisio. A doula é da mulher.
Se a doula pertence à equipe de alguém, quem ela defende na hora do parto? E defender, as duas fazem questão de dizer, não é brigar. Não é estar contra o médico nem contra ninguém. É ajudar a mulher a lembrar das escolhas que fez na gestação — num momento em que os próprios profissionais sofrem pressão da instituição — e colaborar na comunicação com a equipe. Mesmo quando há indicação de cesárea ou de outra intervenção, esse alinhamento deixa o processo mais saudável.
O que não é papel da doula
A lista do que a doula não faz é tão importante quanto a do que ela faz, e a conversa percorre as duas.
A doula não pede nem avalia exame, não dá diagnóstico, não sugere conduta, não prescreve medicação nem vitamina. Não ausculta o coração do bebê, não faz toque. E não decide pela mulher — muito pelo contrário:
O papel da doula é abrir o leque de possibilidades, para que a mulher entenda que existem escolhas e possa fazer as dela.
Também não é fazer massagem. Aqui Amanda aponta uma confusão comum: a profissional de outra área que se apresenta como doula porque, na hora do parto, escuta a mulher e faz massagem. Escuta atenta e toque acolhedor, diz ela, são o mínimo que se espera de qualquer profissional na cena do parto — médico, enfermeira ou fisioterapeuta. O trabalho da doula vai além: preparação durante a gestação, suporte físico e emocional contínuo, métodos não farmacológicos de alívio da dor, e a lembrança das escolhas da mulher na hora em que ela mais precisa.
Chegar primeiro, ficar em casa, chamar a parteira
Três perguntas práticas dividem as equipes, e o episódio responde a cada uma.
A doula tem que chegar primeiro? Na maior parte das vezes ela chega — mas não como regra. No começo do trabalho de parto, na fase latente, a mulher costuma precisar de suporte físico e emocional, e a parteira ainda não tem função ali. A doula vai até a casa, fica um tempo, a mulher se sente mais segura, às vezes até consegue dormir, e a doula volta para casa.
É a doula quem decide a hora de a parteira ir? Também não. É comunicação: a doula experiente observa o comportamento da mulher e o padrão das contrações, e avisa a enfermeira obstetra ou a obstetriz quando percebe sinais de fase ativa. Juntas, elas avaliam o próximo passo. "Eu amo uma doula experiente no parto", diz a Karina.
A doula pode ficar com a mulher em casa até a hora de parir, e só então levar ao hospital? Aqui a Amanda é taxativa: é arriscado. Sem ausculta e sem avaliação clínica, ninguém sabe se mãe e bebê estão bem — e o bebê pode nascer no caminho, com uma intercorrência que ninguém acompanhou. A doula precisa conhecer a fisiologia do parto justamente para reconhecer a hora de ter um profissional clínico ao lado.
Quem escolhe a doula é a mulher
A Karina conta um caso recente: um casal que ficou desconfortável com a doula e, na visita pós-parto, cobrou dela que tivesse "falado com a doula". A resposta foi que não cabe à enfermeira escolher, aprovar ou vetar a doula. Quem contrata a doula, a enfermeira e o médico é a mulher.
Isso não impede ninguém de ter reservas — sobre um médico, sobre uma parteira, sobre uma doula inexperiente. Maturidade profissional vem com o tempo, e a saída é cada um fazer bem o próprio papel sem invadir o do outro. Inclusive no plantão, onde a assistência um a um não existe: a doula não vai auscultar nem avaliar dilatação para a mulher chegar ao hospital "com 9 centímetros". Não é a alçada dela.
O que a evidência e a lei dizem
O apoio contínuo durante o trabalho de parto é das intervenções mais estudadas da obstetrícia. A revisão Cochrane de 2017, que reuniu 26 ensaios clínicos com quase 16 mil mulheres, encontrou que quem tem apoio contínuo tem mais chance de parto vaginal espontâneo e de trabalho de parto mais curto, e menos analgesia, menos cesárea, menos parto instrumental e menos experiências negativas. O benefício é mais nítido quando quem apoia está ali no papel de doula.
E desde abril deste ano a doula tem profissão regulamentada no Brasil. A Lei 15.381/2026 exige ensino médio completo e formação específica, e garante a presença da doula escolhida pela gestante, na rede pública e na privada, sem tirar o direito ao acompanhante. "Há uma esperança muito grande de que daqui para frente isso seja cada vez melhor", diz a Amanda.
Cada um no seu papel
A ideia que atravessa a conversa inteira é simples de dizer e difícil de praticar: quando cada profissional cumpre bem a própria função, o trabalho do outro melhora.
A Amanda descreve isso do ponto de vista dela. Se a enfermeira obstetra ou a obstetriz está cuidando da parte técnica na fase ativa, a doula pode sair um instante, respirar, se recompor, e voltar inteira para terminar o acompanhamento. A Karina conta o outro lado: mais de uma vez baixou o próprio valor para que a mulher conseguisse contratar também uma doula — porque isso facilita o trabalho dela e melhora a experiência da mulher.
E há o desgaste. Quem trabalha com parto não bate ponto nem atende todo dia, e mesmo assim se esgota. A Karina fala em um burnout real entre profissionais do parto, que ainda precisa ser mais estudado. Backup entre doulas, coletivos de parteiras e equipes que dividem a carga são, para as duas, o jeito de continuar.
O que fica
O recado final da Amanda é uma esperança antiga: uma doula para cada mulher. Para isso, diz ela, falta política pública — e falta os outros profissionais entenderem o papel da doula, para dividir o cuidado em vez de carregá-lo sozinhos.
É possível trabalhar em equipe multidisciplinar, ser próspero e estar satisfeito com o seu trabalho.
E para quem está pensando em ser doula, ela não hesita: estamos precisando de doulas. De boas doulas.
Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.
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