Todas as matériasCarreira

A jornada da parteira: como se constrói uma carreira em enfermagem obstétrica

8 min de leitura

Existe uma história que se conta sobre quem trabalha com parto, e ela quase sempre começa do mesmo jeito: era vocação, vinha de família, tinha uma avó parteira, sempre soube. É uma história bonita, e tem um efeito colateral — faz quem não se reconhece nela achar que chegou no lugar errado.

No primeiro episódio do PartoCast, Karina Trevisan conta uma história diferente. Ela queria nutrição. Prestou o colégio técnico e não passou. Chegou à enfermagem porque uma amiga um ano à frente dela sugeriu: por que você não faz um curso de auxiliar, para ver se gosta?

Ela fez. E hoje a maior parte das parteiras que atuam em São Paulo se formou com ela.

Entre uma coisa e outra há vinte e cinco anos de decisões — algumas corajosas, outras erradas, várias delas sobre dinheiro. Vale olhar para elas com atenção, porque a carreira em enfermagem obstétrica raramente é contada assim: sem épica, com as contas à mostra.

O parto que ela viu na faculdade e nunca esqueceu

Último ano de graduação, estágio num hospital público de São Paulo. A mulher na mesa ginecológica, em posição de litotomia. Anestesia de períneo. Episiotomia. Puxo dirigido — o "força, força, força" que ainda ecoa em tantas salas. O bebê nasceu, foi cortado e entregue ao pediatra. A mulher ficou ali, esperando dequitar a placenta.

Karina saiu daquela sala com uma frase na cabeça que ela repete até hoje:

Eu quero parir, mas eu não quero que seja assim.

Vale reparar no que essa frase tem de incomum. Não é indignação teórica, aprendida em aula sobre violência obstétrica — o termo nem circulava assim naquela época. É reação de corpo, de quem se colocou no lugar da mulher deitada. Muita gente que hoje atua com parto tem uma cena equivalente guardada. Costuma ser o começo de tudo.

"A enfermeira não está no cuidar"

O outro choque da graduação foi estrutural, e continua atual.

Karina entrou na faculdade esperando encontrar a enfermagem à frente do cuidado. Encontrou ela atrás. No modelo que se consolidou nos hospitais brasileiros, quem está na beira do leito é o técnico de enfermagem: quem prepara medicação, quem faz curativo, quem toca. À enfermeira sobrou a escala, a prescrição, a divisão de pacientes entre a equipe, a passagem rápida pela unidade.

A enfermagem não está na área do cuidar. A enfermagem está na área de gerir a unidade.

É um diagnóstico duro, e é o que explica a inquietação que atravessa a carreira dela inteira. Quando Karina diz à mãe, aos 23 anos, que não quer "virar enfermeira de unidade o resto da vida", não está desprezando a colega que faz esse trabalho. Está dizendo que aquilo não era o cuidado que ela tinha ido buscar.

As pessoas que empurraram

Nenhuma das viradas aconteceu sozinha, e essa talvez seja a parte mais útil do episódio para quem está começando.

Foi uma professora da graduação, Sônia Barros, quem olhou para a aluna de primeiro ano e disse: se você quer essa carreira, precisa se diferenciar — vá fazer inglês. Foi ela quem colocou Karina na iniciação científica, no estágio, na coleta de dados. E foi ela também quem deu o conselho mais desconfortável: não chega com dois pés no peito das pessoas, minha filha, você assusta demais.

Foi um colega do movimento de humanização quem a convidou, aos 25 anos, para implantar um centro de parto normal num hospital público da zona leste — onde ela tirou o centro obstétrico do lugar e enfrentou a resistência das próprias enfermeiras, que não queriam se afastar dos médicos por medo de uma hemorragia pós-parto ou de uma distócia de ombro. Medo que, como ela observa, não é covardia: é o que sobra quando a faculdade não ensinou.

Foi uma enfermeira que atendia parto domiciliar quem lhe mostrou que aquilo era possível — e que dava para viver disso.

E foi outra enfermeira, então à frente da associação da categoria, quem respondeu a uma pergunta que Karina teve coragem de fazer em voz alta.

"É errado eu querer ganhar mais?"

Essa é a pergunta que ela fez por telefone ao decidir pedir exoneração de um cargo público estável para ir trabalhar no privado.

A resposta foi curta: não é nada errado, Karina. Você não precisa ficar amarrada em lugar nenhum.

O episódio inteiro é atravessado por essa questão, e de um jeito que quase não se ouve em conversa profissional na saúde. Karina vendia Natura na faculdade. Fazia brigadeiro e ovo de Páscoa para vender. Foi monitora em hotel. Pagou o primeiro carro ao pai, em parcelas. Pagou do próprio bolso um curso de administração hospitalar que custava treze mil reais na época. Trabalhou em dois empregos durante todo o mestrado, porque a bolsa era baixa demais e ela não queria depender dela.

Eu queria trabalhar e ganhar dinheiro.

Dito assim, sem pedir licença. Quem trabalha com parto conhece bem a pressão contrária — a ideia de que cuidar é um chamado, e que falar de dinheiro suja o chamado. O efeito prático dessa pressão é uma categoria mal remunerada que ainda se sente culpada por reparar nisso.

A demissão que virou decisão

Depois de quatro anos montando um hospital do zero — projeto, processo seletivo, equipe inteira —, a gestão pública mudou. Karina estava grávida. Foi afastada, e demitida três meses depois de o filho nascer.

A conclusão que ela tirou dali não foi sobre injustiça:

Não quero mais hospital, não quero mais gestão. Quero ser autônoma.

Foi o que destravou o resto: a primeira empresa, o consultório numa casinha alugada, e a conta simples que ela fez antes de assinar — se eu atender um parto por mês, pago as contas da casa; com dois, pago as minhas.

A parte que ninguém conta: a "maldição da cesárea"

Essa é a passagem mais honesta do episódio, e a mais rara.

Karina quis um parto domiciliar e teve uma cesárea. Depois disso, por um período, as mulheres que ela acompanhava também acabavam em cesárea, uma atrás da outra. Ela chegou a acreditar que estava amaldiçoada.

O que fez a respeito? Terapia. Constelação familiar. Voltou para a terapia. E um dia substituiu às pressas uma colega que ia viajar, numa gestante em pródromos — que pariu em casa, sem dar tempo de chegar ao hospital.

Pronto, a maldição foi quebrada.

Não é uma história sobre técnica. É sobre o que o profissional carrega para dentro do atendimento, e sobre o preço de não olhar para isso. Vale para toda pessoa que assiste parto.

De parteira a enfermeira

Por anos Karina se apresentou como parteira, não como enfermeira. Era escolha deliberada: enfermeira, no imaginário da época — inclusive no dela —, não fazia o que ela fazia. Quando chegava a um hospital transferindo uma gestante, eram as enfermeiras que a criticavam mais duramente.

A virada de identidade veio tarde, e veio junto com o Instituto:

Foi só no lançamento que eu entendi que eu não era parteira, que eu era enfermeira — e que enfermeira podia fazer o que eu fazia.

É uma frase pequena que carrega o projeto inteiro. Ensinar enfermeiras a fazer o que ela faz deixou de ser um curso e virou uma tese sobre a profissão.

E, mais recentemente, deixou de ser só sobre enfermeiras. O Instituto se abriu para doulas, e a Karina fala em formações para outras áreas que atuam no nascimento. O PartoCast nasce dessa mesma decisão: o podcast não é para enfermeiras obstetras, é para quem atua com parto.

Parir é um movimento político

Há uma ideia no episódio que vale destacar porque ultrapassa a biografia.

Ao longo dos anos em que participou da associação da categoria, Karina foi construindo uma leitura que hoje ela enuncia sem rodeios: parir é um movimento político. Aleitar é um movimento político. Não porque alguém queira transformar o nascimento em bandeira, mas porque, num país onde a cesárea responde pela maioria dos nascimentos — e onde a taxa na saúde suplementar é muito maior que na rede pública —, escolher parir é ir contra o que está posto.

Quem deseja parir precisa saber que está indo contra o senso comum.

Isso reposiciona o trabalho de quem assiste parto. Não é só técnica bem aplicada: é sustentar uma escolha que o sistema, na média, não favorece.

O que fica

Se há uma lição prática na jornada da Karina, não é "siga seu chamado". É quase o contrário.

A carreira dela foi construída em cima de decisões pouco românticas: sair de um emprego estável por dinheiro, recusar um hospital de prestígio porque ali não se aprendia o que ela queria aprender, cobrar um valor mais alto e aguentar o desconforto disso, pedir ajuda a quem já tinha trilhado o caminho. Coragem, no relato dela, aparece menos como bravura e mais como disposição a sair do lugar confortável — repetidamente, por vinte e cinco anos.

Para quem está começando e olha a enfermagem obstétrica se perguntando se dá para viver disso: a resposta do episódio é que dá, mas não acontece por acaso, e a conversa sobre dinheiro precisa ser feita em voz alta.

Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.

Conheça o Instituto Poder do Partejar e siga a gente no Instagram.

Achou útil? Envie para quem precisa ler

Conteúdo técnico circula de plantão em plantão — e é assim que chega em quem está com a dúvida agora.

Para ir além

Assistência ao parto com autonomia e respaldo científico

Formação híbrida com estágio presencial garantido em São Paulo. Da fisiologia do parto às urgências obstétricas, com prática supervisionada por quem atua na assistência.

Conhecer a Pós em Enfermagem Obstétrica

Receba as novidades do instituto

Novas turmas, conteúdo técnico sobre parto, puerpério e aleitamento, e os artigos publicados aqui — direto no seu e-mail.

Só o e-mail é obrigatório. Nome e telefone são opcionais, e servem para a equipe falar com você quando fizer sentido.