Todas as matériasCarreira

A jornada da consultora em aleitamento materno: da cardiologia à casa das puérperas

Por Karina Fernandes Trevisan10 min de leitura

PartoCast EP 07 · A jornada da consultora em aleitamento materno, com Cinthia Calsinski · ouvir no Spotify

Cinthia Calsinski estava terminando o doutorado quando teve o segundo filho. A carreira, até ali, era acadêmica e era na cardiologia: iniciação científica, mestrado, doutorado, aulas na graduação. A amamentação, de novo, não estava fácil, e uma enfermeira obstetra foi à casa dela para uma coisa que ela nem sabia que existia.

Consulta de aleitamento. E ali, a minha ficha caiu. E eu falei, é isso. É isso. É isso que eu quero fazer.

No sétimo episódio do PartoCast, Karina Trevisan recebe a Cinthia, sua caloura na faculdade de enfermagem da Unifesp, para contar a jornada até a consultoria em aleitamento materno. Uma jornada que, nas palavras da convidada, "não foi linear".

Um livrinho e uma bisavó parteira

A Cinthia não sabia o que prestar. A orientação vocacional devolveu uma lista: enfermagem, serviço social, fonoaudiologia, psicologia. Numa livraria, ela encontrou uma coleção de livrinhos sobre profissões e pegou primeiro o "O que é ser enfermeira". Lembra até hoje das frases: a enfermeira é quem fica ao lado do paciente de madrugada, quem detecta as primeiras complicações, quem dá assistência de saúde e também emocional. Não comprou nenhum outro.

Havia outra história por trás da escolha. Ela cresceu ouvindo que a bisavó tinha sido parteira no Rio Grande do Sul e ia a cavalo de fazenda em fazenda para fazer os partos. Quando o bebê estava sentado, contava a mãe da Cinthia, a bisavó o virava dentro da barriga para ele nascer de cabeça. "Quando ela me contou essa história, eu falei, é isso que eu vou fazer."

O caminho até a faculdade deu voltas. Saindo de Santos, ela passou na federal de São Carlos, ficou dois meses e trancou a matrícula: a viagem de quatro horas deixava um dia e meio em casa no fim de semana. Fez cursinho, prestou de novo e entrou na Unifesp, onde se sentiu "saindo do casulo". A Karina tira daí um conselho para quem está escolhendo agora: não ter pressa, porque o que se escolhe tão cedo não precisa ser para o resto da vida.

Do PIBIC ao doutorado, na cardiologia

No segundo ano, num congresso de cardiologia, a Cinthia foi cumprimentar a palestrante, uma professora da Unifesp. Saiu de lá com uma bolsa de iniciação científica. Vieram dois PIBICs, os plantões como bolsista na cardiologia e, depois, o mestrado e o doutorado. A professora virou referência, e a Cinthia explica por que isso pesa: quem começa na enfermagem ainda não sabe o seu papel nem como se colocar, e "a gente precisa de muita referência para a gente aprender a se colocar".

A Karina leva o assunto mais longe. Ela vê a enfermagem num lugar de submissão muito grande dentro das instituições, muitas vezes por falta de conhecimento, e defende que o posicionamento passa por coisas concretas: postura, fala, escrever corretamente. "As pessoas olham a gente de maneira diferente, só pelo nosso posicionamento."

O que movia a Cinthia na cardiologia, olhando para trás, já era outra coisa: as famílias. No mestrado, ela fez uma cartilha para quem ia visitar um parente no pós-operatório de cirurgia cardíaca, explicando para que serve cada aparelho. No doutorado, mediu a ansiedade das famílias antes e depois da visita, comparando quem tinha recebido a cartilha com um grupo controle. Entender que os aparelhos muitas vezes só monitoram muda a forma de enxergar o paciente. "Foi nessa pegada, que é humanização."

Depois, foi ser professora universitária, de saúde do adulto e de sistematização da assistência de enfermagem, e ajudou por muitos anos nas traduções da NANDA, da NIC e da NOC. Uma carreira acadêmica que a Karina chama de fantástica. Hoje, nenhuma das duas se vê na academia, e a Karina conta que o Instituto avançou do jeito que avançou justamente porque ela desistiu de ser uma professora acadêmica tradicional.

"Eu não banquei"

Foi a maternidade que mudou o rumo. No primeiro filho, há quase dezenove anos, a Cinthia, atleta e esportista, queria parto normal. Terminou numa cesárea agendada.

Só que eu não banquei. Eu não banquei.

Não havia rede social, não se falava de parto como hoje, e ela se sentia sozinha. A Karina reconhece esse medo: o de decidir sozinha e, se alguma coisa acontecer, ser responsável por tudo.

Depois do parto veio a apojadura, "bombástica", e com ela a primeira ajuda especializada: a pediatra dos filhos, que tinha a certificação internacional de consultora em lactação, a IBCLC. A Cinthia passou pela fase crítica sem tirar o bebê do peito e amamentou quase até um ano.

Nessa época, ela coordenou por anos as sessões de um movimento de mães que levavam os bebês ao cinema. Ali conheceu mulheres que pariam em casa, e achava aquilo uma loucura. O terceiro parto dela foi em casa, "para pagar a língua". O que mudou, diz ela, foi o conhecimento. E, para a Karina, é para isso que servem os movimentos sociais: ajudar a gente a sair do casulo.

A consulta que fez a ficha cair

Na segunda gravidez, ela decidiu fazer tudo diferente e escolheu um obstetra referência do parto humanizado. Foi ele quem perguntou o que ela faria depois do doutorado, e se já tinha pensado em obstetrícia. Tinha: era o que a levara à enfermagem. Ganhou dele material sobre obstetrícia e devorou.

O segundo parto foi normal, no hospital, e a amamentação de novo não foi fácil. Veio a fissura, e com ela a conversa sobre fórmula. Foi quando a enfermeira obstetra da equipe foi até a casa dela, e a Cinthia descobriu a consulta de aleitamento. Ela já gostava de buscar na fisiologia a explicação para as próprias inseguranças, como a sensação de pouco leite no fim da tarde. Entregou a tese, fez uma festa e se matriculou na especialização em obstetrícia.

Aprendeu trabalhando. A enfermeira obstetra que a acompanhou na gestação a chamou para atender com ela assim que entregasse a tese. A Cinthia começou a atender durante a especialização.

Quando a gente já tem a prática e a gente tá estudando ao mesmo tempo, a gente absorve muito mais. Aquilo é muito prático, aquilo é muito real.

Por que o parto não coube

Na especialização, a Cinthia passou por várias áreas e achava o parto "super legal". Mas ele não cabia na vida dela.

Eu tenho três filhos, sabe, esse marido é médico, então assim, quem é backup de quem?

E havia o gosto: ela gostava muito mais de amamentação. A Karina, que se diz "do pré-natal e parto", resume o que a trajetória da amiga mostra: a obstetrícia não é só parto, nem só pré-natal.

A recompensa, diz a Cinthia, vem todo dia. Muita gente trabalha meses num projeto para ter a sensação de que ajudou alguém.

A gente tem todo dia. Então é todo dia que você faz uma consulta, você sai de lá melhor, porque você ajudou de fato. [...] Foi difícil encontrar o caminho, mas foi o lugar certo.

Para a Karina, há mais em jogo. Acompanhar mulheres no aleitamento materno é, como parir e acompanhar partos, um ato político, porque é a defesa do que é da mulher. Ser consultora não é só uma estratégia financeira: sem a intenção de mudar a realidade da assistência no país, "a gente não sai do lugar".

Na amamentação, mais autonomia

A Karina também atende pré-natal por um plano de saúde e acredita que a informação que oferece às mulheres nessas consultas já é uma grande coisa. Mas, no parto, essa informação muitas vezes esbarra numa pergunta: "você vai colocar em risco a vida do seu filho?". Poucas mulheres, poucos casais, conseguem bancar a escolha diante do medo. Na amamentação, diz a Karina, a profissional tem mais autonomia e faz muito mais coisa, mesmo quando algum pediatra quer introduzir fórmula.

A Cinthia concorda: a amamentação "não envolve tantos riscos assim", e dá para mostrar. Quando a mãe está insegura, ela leva a balança, pesa o bebê, põe no peito e pesa de novo.

Tá vendo? Engordou. Bebê mamou, tem leite.

Ela ressalva que a pesagem antes e depois da mamada não é indicada sempre, e não a faz em toda consulta. Para a mulher insegura, o primeiro argumento é o próprio bebê: está fazendo xixi, está fazendo cocô, então está mamando. Se a insegurança continua, ela marca uma consulta só para pesar.

A rotina é de rua: dirigir, atender, dirigir de novo. Uma suspeita de mastite numa paciente que já é dela pode virar visita na hora do almoço. São umas 25 consultas por semana.

O sono, e o pré-natal de sono

Perguntada sobre o lado emocional do puerpério, a Cinthia aponta o que, para ela, é hoje o maior desafio: o sono. Muitas mulheres chegam querendo uma estratégia para não acordar de madrugada, uma espécie de pílula mágica para o bebê dormir a noite inteira. Ela entende, porque também gosta de dormir, mas lembra que o pós-parto é desafiador, e que isso precisa ser conversado ainda no pré-natal.

Ela é também consultora de sono, e diz que não ama resolver o problema de sono já instalado. O que ama é a consulta pré-natal de sono: explicar, antes de o bebê nascer, as bases da fisiologia, como é o sono de um bebê, de uma criança e de um adulto, e quais hormônios estão envolvidos, para a rotina já começar pensando nelas. "Dificilmente eu tenho um problema de sono no final."

Foi estudar o sono por causa dela mesma. O sono tinha sido a parte mais doída dos puerpérios, e ela queria um terceiro filho. "Eu só vou ter três filhos se eu entender o sono." Começou anotando num caderninho o que dava para fazer como prevenção, e daí nasceu o trabalho na gestação.

A prova

Com uns dez anos de consultoria, a concorrência tinha crescido, e a Cinthia sentiu que era hora de "alcançar algo mais". Veio a pandemia: as consultas passaram a ser também online, sem deslocamento, e sobrou tempo para estudar. Ela estudou e prestou a prova da certificação internacional de consultora.

Foram três, quatro meses de estudo, todos os dias, inclusive no aniversário. Ela, que diz nunca ter se abalado com prova, saiu dessa chorando de estresse. A primeira parte é só teoria; a segunda, só imagens. E as questões pegam quem não lê até o fim.

Estão todas certas, exceto. [...] Se você não prestar atenção, você olha ali todas certas, você olha a primeira, a primeira tá certa, você clica, era exceto.

O título, diz ela, trouxe reconhecimento e diferenciação entre profissionais, e permitiu aumentar o valor da consulta. Para quem quer trabalhar com aleitamento, o conselho é estudar, começar a atender e botar a mão na prática, porque é na prática que a teoria se aprende de verdade, e só então se preparar para a prova.

"Eu sou doutora"

No fim, quando a Karina pede o Instagram, a Cinthia explica o "dra." do perfil. Ela passou a usar o título depois de ver profissionais sem doutorado serem apresentadas como doutoras. "Eu falei, pera, eu sou doutora." A Karina conta que também precisou de uma "reelaboração interna" para usar o título. As duas têm doutorado, e o assunto volta ao começo da conversa: o lugar em que a enfermagem se coloca.

O que fica

A jornada da Cinthia vai de um livrinho sobre o que é ser enfermeira a uma carreira acadêmica na cardiologia, e dali, pelos próprios partos, à casa das mães que estão começando a amamentar. Não foi linear, e ela não esconde os desvios. A Karina, que gosta de começar os grupos dela ouvindo a história de cada um, fecha a conversa com o porquê:

Eu acho que é a história que move a nossa vida, a nossa história e o nosso objetivo. Onde é que a gente quer chegar.

A Cinthia está no Instagram como @dracinthiacalsinski.

Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.

Conheça o Instituto Poder do Partejar e siga a gente no Instagram.

Achou útil? Envie para quem precisa ler

Conteúdo técnico circula de plantão em plantão — e é assim que chega em quem está com a dúvida agora.

WhatsAppLinkedInFacebookE-mail

Para ir além

Assistência ao parto com autonomia e respaldo científico

Formação híbrida com estágio presencial garantido em São Paulo. Da fisiologia do parto às urgências obstétricas, com prática supervisionada por quem atua na assistência.

Conhecer a Pós em Enfermagem Obstétrica

Se o que você quer é justamente este assunto, na prática: Consultoria em Amamentação.

Receba as novidades do instituto

Novas turmas, conteúdo técnico sobre parto, puerpério e aleitamento, e os artigos publicados aqui — direto no seu e-mail.

Só o e-mail é obrigatório. Nome e telefone são opcionais, e servem para a equipe falar com você quando fizer sentido.