A jornada da psicóloga: da UTI neonatal ao pré-natal psicológico, e o papel de cada um no parto
Por Karina Fernandes Trevisan10 min de leitura

Em trabalho de parto, sentindo dor, gritando e se mexendo, Karin Godoy ouviu da enfermeira que a assistia uma frase que nunca mais saiu da cabeça dela.
Você precisa se acalmar, porque senão seu bebê vai nascer estressado.
A filha nasceu e foi direto para a UTI neonatal. Ninguém tinha como prever, mas a frase ficou ecoando. "Se a minha filha foi pra UTI, a culpa foi minha. Eu devia ter ficado quieta."
Karin é psicóloga há dezenove anos e, hoje, psicóloga perinatal: faz pré-natal psicológico com casais e atende mulheres na gestação, no pós-parto e no luto. No quinto episódio do PartoCast, ela conta a Karina Trevisan como chegou até aqui, passando do outro lado por quase tudo o que hoje acompanha no consultório. E como, nas duas vezes em que mais precisou, a psicologia não chegou até ela.
"Aonde é que está a psicologia?"
O primeiro filho nasceu de uma cesárea que ela não queria. "Fui conduzida a uma cesárea que hoje eu sei, depois que eu estudei, que foi uma cesárea desnecessária." Na segunda gestação, foi atrás de informação e teve um parto vaginal, sem anestesia. Logo depois do nascimento, a bebê teve uma complicação e passou treze dias na UTI neonatal.
Eu não recebi nenhum tipo de assistência da psicologia. Para não dizer que eu não recebi, eu recebi a visita de uma psicóloga no hospital, mas que não me deu nenhum tipo de conforto, nenhum tipo de alívio e tampouco de orientação.
Ela não tinha visto a filha, levada imediatamente para a UTI. Passou seis horas numa sala de pós-parto com outras três mulheres e seus bebês, sem notícias, ouvindo os barulhinhos dos outros recém-nascidos. Suja de sangue, sem ter tomado nenhuma anestesia, não podia levantar para tomar banho. Perguntava por quê. "As enfermeiras só falavam para mim: é protocolo do hospital, não posso."
"As pessoas não sabem responder", diz a Karina. Era uma maternidade privada de referência, e isso foi há doze anos. As duas concordam que pouco mudou.
A perda, e os profissionais que fogem dela
Anos depois veio uma gestação inesperada, e com ela uma perda gestacional que quase lhe custou a vida. No pronto-socorro, ninguém achava o bebê. A médica considerou que era um abortamento, mandou-a para casa sem nenhuma orientação e, quando ela voltou com novos sintomas, disse que ela precisava aceitar a perda. Internada depois, ficou num corredor com mulheres parindo. Uma funcionária da limpeza entrou e perguntou: "Ué, cadê seu bebê?"
Para a Karina, as pessoas querem terceirizar esse cuidado, porque ter contato com a perda é muito ruim. As duas descrevem profissionais de hospital pouco preparados para qualquer desfecho ruim, seja um óbito ou não, e que, diante da própria impotência, acabam não oferecendo assistência nenhuma.
A Karin fez o que muita gente faz. Enterrou o luto. "Não vivi nada daquela perda e só fui pro foco do: tenho dois filhos pequenos, preciso ficar bem, preciso cuidar deles e vamos seguir a vida." A mensagem que recebia de fora, e que repetia para si mesma, era a de sempre: você nem estava planejando engravidar, então está tudo bem.
"Briguei com a psicologia"
O que ela ainda não sabia é que vinha atravessando uma depressão desde o nascimento da filha, sem diagnóstico. Afastou-se do consultório por cerca de cinco anos para cuidar da saúde da menina, e da profissão também.
Eu tava revoltadíssima com a psicologia. Eu falo que eu briguei com a psicologia. Como é que eu sou capaz de ajudar alguém se eu não tenho um ser vivo nesta terra para me ajudar e para me acolher?
O sinal veio pela indiferença. Ela sempre tinha sido ativa, opinativa, e de repente tanto fazia ir ao cinema ou ficar em casa. Continuava funcionando: acordava, cuidava das crianças, nada faltava a elas. "Eu não tô sentindo prazer nas coisas que eu faço. Eu era muito funcional." Às vésperas do Natal, quando já tinha decidido procurar um psiquiatra e não havia nenhum atendendo, teve uma crise. Em janeiro veio o diagnóstico e a medicação, e ela viveu aquilo como uma derrota: como ser psicóloga de alguém tomando remédio psiquiátrico?
A resposta que encontrou foi estudar. Fez um curso de psicofarmacologia para entender o que a medicação fazia no corpo dela, e o estudo trouxe um conforto: havia algo químico ali, que não se resolve por força de vontade.
Você não consegue fazer a alteração química mudar só pelo seu desejo. Porque, se fosse assim, psicólogo não existia. Você vai lá e fala: eu decidi que eu não vou ser depressiva. Não é assim.
Pesava também o julgamento. A filha adoecia com frequência e demorava a ganhar peso, e o que a Karin ouvia era que a mãe não cuidava direito, que faltava uma touca. Ela mesma passou a achar que o leite não bastava. "Isso tudo cai nas costas da mãe." A culpa foi para as festas de aniversário: comprou uma máquina de corte e passou a fazer a decoração mais bonita, mais organizada, mais perfeita. "Hoje eu sei que é quase uma atitude compensatória. Eu tinha tanta culpa que eu precisava fazer a festa perfeita."
"É aqui o meu lugar"
O caminho de volta começou com uma sugestão da própria terapeuta: um workshop de psicologia perinatal, em 2018. A Karin voltou com os olhos brilhando e saiu de lá com um encontro marcado num grupo de pesquisa universitário que estudava a mulher na gestação e no pós-parto. Um mês depois, o grupo precisava de psicólogas formadas para entrevistar puérperas, e ela se ofereceu como voluntária.
Eu lembro que, na primeira entrevista de pós-parto que eu fiz, a mulher saiu, eu fiz toda a anotação, e falei: "Cara, aonde eu tava? É aqui o meu lugar."
Foi também ali que ela começou a questionar a própria área. Os estudos de desenvolvimento infantil culpabilizavam demais a relação da mãe, que era o mundo daquela criança na gestação, mas não cuidavam dessa mulher. E a gestante, por sua vez, ainda resiste: "eu não tô doente, tô ótima, por que eu vou fazer acompanhamento?"
Ela voltou ao consultório, passou a conduzir rodas de gestantes num programa de pré-natal da pesquisa, e carregou a culpa de deixar os filhos com o marido no fim do dia para dar conta disso. Veio a pandemia, o projeto parou, e ela fez um curso de pré-natal psicológico com uma das pioneiras da área. Começou a atender online, gente do Brasil inteiro, e se voluntariou para acolher as mães que a pandemia sobrecarregou. Em 2021 abriu a primeira turma própria de pré-natal psicológico. No começo deste ano, terminou uma pós-graduação em psicologia perinatal.
Eu faço parte de uma geração pioneira de psicólogos que começaram a estudar isso e a organizar isso.
Pré-natal psicológico não é terapia
No começo, a Karin atendia a mulher e chamava o parceiro para um encontro. Percebeu que não adiantava: o casal precisa passar junto por todos os conteúdos, do preparo emocional para o parto ao pós-parto, da amamentação à sexualidade e ao relacionamento. Porque o que acontece ali é uma mudança de papéis.
Eu deixo de ser filha e passo a ser mãe. Eu não posso mais tomar uma atitude só individual, eu tenho que pensar no todo.
Por isso, diz ela, acompanhamento psicológico não é a mesma coisa que pré-natal psicológico. A perinatalidade ainda não é matéria dos cursos de psicologia, e nem todo profissional está preparado para atender gestação e pós-parto. Ela recebe mulheres que estavam em terapia e ouviram barbaridades: "mas é assim mesmo, mãe sofre assim mesmo", "você não devia estar triste, seu filho está ótimo".
E existe perda em todo o processo, não só a gestacional. "É uma perda de liberdade, de autonomia, a perda da versão de quem eu era para a versão de quem eu passo a ser." Quem atende gestação, cedo ou tarde, vai encontrar uma situação de perda. O despreparo, nesse momento, custa caro para a família.
Falar do que ninguém quer ouvir
Quando enfim conseguiu entrar na UTI, seis ou sete horas depois do parto, a Karin não perguntou o que podia ou não fazer. "Aquela criança era minha." Debruçou-se sobre o berço e começou a falar no ouvido da filha: a mamãe está aqui, eu cheguei, está tudo bem, você vai ficar bem. As máquinas dispararam. A bebê estava num protocolo de resfriamento que ninguém tinha explicado a ela, e veio a bronca da pediatra.
Hoje esse é um dos encontros do pré-natal psicológico dela, e o mais difícil.
É um encontro que as mulheres, e os maridos principalmente, odeiam. Eles me odeiam naquele encontro. Mas é extremamente necessário: vocês sabem quais são os direitos de vocês? Se o seu filho for para a UTI, vocês sabem como funciona, o que vocês podem perguntar?
A Karina faz o mesmo no plano de parto que usa com as famílias que acompanha. Ele tem uma parte sobre mau desfecho: se o bebê for para a UTI, se a mulher for para a UTI, se o bebê morrer, como a família quer que seja conduzido. Para as duas, não dá para preparar uma família para o parto ignorando que o mau desfecho existe.
Depressão pós-parto: prevenir, e não só remediar
A Karin lembra que a mulher segue num período de vulnerabilidade emocional até os dois anos do bebê, e que a depressão pós-parto é mais comum do que parece, e menos aceita do que deveria. "O filho tá bem, deu tudo certo, por que você tá triste?" Se o bebê tem algum problema, a tristeza é justificada; se não tem, ninguém entende.
O desafio dela é levar a conversa para antes do adoecimento. Hoje a mulher só é encaminhada à psicologia quando há diabetes, risco de pré-eclâmpsia ou algum diagnóstico no bebê, como se fosse preciso salvá-la. "Mas todas as mulheres estão sujeitas ao adoecimento, porque todas estão passando por um movimento de transformação psíquica, física e social."
Cada um no seu papel
A Karina pergunta o que ela pensa das psicólogas que atuam como doulas, já que a própria Karina é contra a enfermeira que faz o papel de doula. A Karin também é contra: ou a profissional orienta a família sobre o parto, que é o trabalho da doula, ou oferece a estrutura emocional, que é o da psicóloga. As duas coisas ao mesmo tempo não cabem.
Ela conta um parto domiciliar a que assistiu como psicóloga, a pedido de uma mulher que acompanhou na gestação inteira. A doula estava lá, a enfermeira estava lá. Um dos maiores medos daquela mulher era como os outros filhos reagiriam ao bebê, e as crianças chegaram da escola uns quarenta, cinquenta minutos depois do nascimento. Foi a Karin quem cuidou delas, enquanto a doula seguia com a mulher.
O psicólogo não tá ali para fazer intervenção naquele trabalho de parto. Ele tá ali para levar segurança para aquela mulher.
E resume: uma só pessoa não dá conta de mais de uma função dentro da cena de parto.
A Karina leva o raciocínio para a enfermagem: a enfermeira que se apresenta como doula e deixa de auscultar os batimentos do bebê está negligenciando a própria formação. Se está ali como enfermeira, precisa agir como enfermeira. A economia de contratar uma pessoa para duas funções, concordam as duas, acaba virando prejuízo, porque alguma coisa se perde. O que falta, dizem, é complementar em vez de competir.
O que fica
A jornada da Karin vai de uma maternidade em que ninguém soube responder às perguntas dela até um consultório em que ela faz, de propósito, as perguntas que ninguém quer ouvir. No meio, cinco anos longe da profissão, um diagnóstico difícil de aceitar e a descoberta de uma área que mal existia quando ela se formou.
A ideia que fecha a conversa vale para qualquer profissional do parto: quem cuida também precisa de cuidado.
Eu não preciso ser perfeita como mãe, eu não preciso ser perfeita como profissional. Eu não preciso estar intacta. Ah, mas como é que eu vou ser psicóloga tomando medicação psiquiátrica? Além de psicólogo, eu sou uma pessoa. Sou uma pessoa sujeita a traumas, sujeita a experiências negativas, sujeita a adoecimentos. E isso também nos capacita para atender com humanização.
A Karin está no Instagram como @karingodoy.psico.
Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.
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