A jornada da fisioterapeuta: da UBS à cena do parto, e a mão que sabe não intervir
Por Karina Fernandes Trevisan10 min de leitura

Ouvir esta matéria
Leitura pela voz do seu aparelho — dá para acompanhar de mãos ocupadas.
Aline Ambrósio é fisioterapeuta, trabalha com evidência científica e confessa que, por muito tempo, entrou no parto querendo fazer coisas. Aplicar escala de fadiga materna, olhar o joelho, propor um movimento. Foi um curso de doula que a ensinou a tirar a mão.
Dentro de um parto fisiológico, eu sou contratada para não colocar a mão nela. Eu sou contratada para permitir que aquele corpo continue fazendo o que ele sabe fazer.
No sexto episódio do PartoCast, Karina Trevisan recebe a Aline, que ela conhece há anos, para explicar "quem é a fisio nesse rolê todo do parto". A pergunta tem razão de ser. Para a Karina, a base da humanização da assistência é a equipe multiprofissional, e a fisioterapia chegou a essa equipe muito recentemente.
Da Bahia ao assoalho pélvico
A Aline se formou na Bahia, há quinze anos, e diz que a obstetrícia sempre a escolheu. Mas o caminho até ela deu voltas. Na graduação, tentou fazer o trabalho de conclusão de curso sobre o TENS, um aparelho de eletroanalgesia usado para aliviar a dor no trabalho de parto. Havia tão poucos estudos que a ideia foi recusada, e ela escreveu sobre lombalgia.
Aos 22 anos, veio sozinha para São Paulo fazer pós-graduação em fisioterapia desportiva e traumato-ortopedia, uma área prática, como ela. A ideia era voltar para a Bahia. Em seis meses, casou e ficou.
Foi a traumato que a devolveu à obstetrícia. Atendendo atletas de vôlei, ela percebeu que muitas perdiam urina ao pular e ao sacar. "Eu falava: opa, tem alguma coisa aí." Foi estudar a área pélvica e fez uma pós-graduação em saúde da mulher e do homem. Hoje é especialista também em sexualidade e trabalha com obstetrícia há dez anos. A fisioterapia pélvica, lembra ela, atende homens, mulheres em todas as fases da vida e crianças. Ela escolheu as mulheres, e dentro disso, a gestação, o parto e o pós-parto.
Seis anos na UBS
Antes de ser autônoma, a Aline passou seis anos numa unidade básica de saúde. Entrou como fisioterapeuta generalista, atendendo idosos e pacientes de ortopedia, e conseguiu implantar ali a fisioterapia pélvica. Entrou também na equipe de pré-natal: a gestante passava pelo médico, pela enfermeira, pela fisioterapeuta, pelo dentista e pela nutricionista, num fluxo que se manteve até durante a pandemia.
Ao mesmo tempo, ela trabalhava com a Karina na assistência ao parto. Viveu, diz, em duas bolhas que ensinavam a mesma coisa: entender o papel do outro.
Entender o papel da enfermeira, entender o papel do médico. Não é entrar em conflito, mas complementos. Um complementar o outro.
A experiência, para ela, falta à maioria dos fisioterapeutas, que não têm a dimensão do que é estar dentro de uma UBS e entender como contribuir com o SUS. A vivência é, aliás, um tema que atravessa a conversa. A Aline deu aula durante oito anos em graduações de fisioterapia e abriu mão disso porque a rotina acadêmica não cabia na vida de quem acompanha parto, com agenda que precisa ser flexível. Ainda adia o mestrado pelo mesmo motivo. A Karina conta que, depois do doutorado, também não foi para a universidade, para não largar a assistência. E foi daí que nasceu o Instituto.
"Ser técnico não me tira a minha humanidade"
Há uns dez anos, quando a fisioterapia começava a entrar na cena do parto, a Aline sentia que as pessoas não a viam como profissional humanizada por não ser doula. Aquilo a incomodava. "Eu sou uma profissional técnica, e isso, ser técnico, não me tira a minha humanidade."
A Karina concorda e define o termo:
Eu não sou humanizada porque eu sou fofinha. Eu sou humanizada porque eu defendo a assistência multiprofissional e porque eu atuo na evidência científica e eu ofereço informação pro casal pra que ele tome decisão.
Mesmo assim, a Aline foi fazer o curso de doula, para entender o que a doula faz e como ela cuida da mulher. Saiu defendendo que todo profissional do parto deveria fazer o mesmo, "para poder ter clareza, informação, entender a mulher, entender como se cuida da mulher sobre um outro aspecto que não seja o técnico". E saiu também com um limite claro.
Não tem como você ser dois profissionais ao mesmo tempo. Pelo menos eu não consigo ser. Não consigo ser fisiodoula. Ou eu sou fisioterapeuta ou eu sou doula nesse contexto.
A Karina pensa igual: é contra o "dois em um", seja a enfermeira, a psicóloga ou a fisioterapeuta no papel de doula. O que não significa deixar de acolher. Num parto sem doula, conta ela, não fez o papel de doula, mas teve escuta, fez massagem e cuidou do conforto da mulher, sempre como enfermeira. E deixou claro que o suporte contínuo, aquele que fica o tempo todo, é função da doula.
A intervenção começa com você
O que a doulagem deu à Aline foi um olhar mais voltado para a mulher, e um aviso sobre si mesma.
Parto é observação. E nós, se a gente não tomar cuidado, nós somos intervenção desnecessária.
Ela vê muita gente apontando a intervenção médica e esquecendo da própria. "A intervenção começa com você." A mulher que não quer ser tocada e recebe massagem porque "tem que fazer massagem nessa fase", ou que é posta para fazer exercício quando não suporta que encostem nela, está sofrendo uma intervenção desnecessária, diz ela.
O outro extremo também existe. A Aline já acompanhou partos que não estavam evoluindo, com a mulher havia quinze horas em trabalho de parto e alguém insistindo em não fazer nada. Ali, o olhar técnico precisa dizer que é hora de intervir. "A gente está no lugar de extremos", resume a Karina, que cita o que chama de "crossparto": a mulher nem entrou na fase ativa e já tem profissional mandando agachar, levantar e andar. Quando a fase ativa chega, ela está exausta, e o parto não flui.
Movimento pélvico ajuda a evoluir o trabalho de parto? Para a Aline, depende de quem é essa mulher, em que fase está, se comeu, se bebeu água, se dormiu. O parto tem o ritmo dele, e as duas concordam que pedir para a mulher dormir ou ir para o chuveiro também é uma intervenção, e não preguiça de quem assiste. Também concordam que chegar à casa da mulher muda o ambiente, e que o tempo certo da equipe é uma arte: nem cedo demais, criando uma urgência que não existe, nem só na hora de segurar o bebê.
"Não é algo instagramável"
Esse tempo certo, para a Aline, se constrói no pré-natal. Ela não acompanha o parto de quem não conhece. E o critério vale dos dois lados: o contrato dela prevê que qualquer uma das partes pode encerrar o acompanhamento por falta de afinidade ou se as informações do pré-natal não chegam. Ela já usou essa cláusula.
Não é algo instagramável. O parto, para mim, é algo muito sério.
Ela gosta que a gestante entenda a importância da fisioterapia pélvica na gestação, porque o corpo preparado se lembra no parto. Muitas mulheres, diz, se movimentam sozinhas, por instinto, repetindo os movimentos que aliviavam a dor lombar na gravidez. "Você nem coloca a mão."
O assoalho pélvico que a gente esquece
Fisioterapia pélvica, lembra a Aline, não é rebolar na bola nem fazer agachamento. É avaliar a musculatura íntima e o abdômen, e ensinar a mulher a reconhecer uma parte do corpo da qual muita gente mal se lembra. Na prática dela, não é raro a mulher não saber contrair essa musculatura, grávida ou não. Conhecê-la ainda no pré-natal faz diferença no parto, inclusive com analgesia.
Depois do parto, vaginal ou cesárea, a musculatura passa por uma fase flácida. E existe um risco de que pouca gente fala: a retenção urinária no pós-parto, quando a bexiga não consegue esvaziar. Pode acontecer depois de um parto vaginal, e nos atendimentos que a Aline fazia num hospital, aparecia mais depois de cesárea. Ninguém avisa, dizem as duas.
A Karina leva a discussão para a forma de contar. "A gente é estatística." Ela compara com a viagem de avião: a gente embarca, vive a experiência do outro lado, mas a chance de acontecer alguma coisa não é zero. Se o profissional não souber explicar os riscos de cada caminho, quem ouve uma história de complicação conclui que é melhor escolher o outro. E nenhum profissional dá conta de falar de tudo sozinho no pré-natal, concordam as duas: é para isso que serve a equipe.
A frase "parto é uma caixinha de surpresa" também não resiste à conversa. Ninguém controla o que vai acontecer, mas existem caminhos possíveis, e as intercorrências, da distócia de ombro às complicações da cesárea, podem ser conversadas antes. O que surpreende a família, defendem, é o que alguém deixou de comunicar.
A laceração, para a Aline, preocupa menos do que se pensa: muitas vezes faz parte do parto. O que importa mais é se a mulher tem consciência da própria musculatura e se vai ter cuidado depois, porque, parto normal ou cesárea, ela vai continuar vivendo com aquele assoalho pélvico. "O assoalho pélvico bem nutrido cicatriza muito bem."
"A fisioterapia não é a Aline Ambrósio"
A Karina lembra da rotina antiga da amiga: UBS de segunda a sexta, consultório à tarde, parto de madrugada, aula à noite e nos fins de semana. A Aline teve um burnout. A saída da UBS, conta, começou pelo respeito à Aline pessoa, passou por um processo de terapia, pela saúde mental e por planejamento financeiro. O que mais a desgastava não eram os atendimentos, era a carga administrativa. E havia o propósito: ela sempre defendeu que toda mulher tem direito a um atendimento humanizado e respeitoso, e se perguntava quem seria fora do SUS.
O que a tranquilizou foi ver que o trabalho ficou. A UBS segue com uma fisioterapeuta pélvica.
A fisioterapia não é a Aline Ambrósio. A fisioterapia existe independente do profissional que está ali, porque foi trazida uma consciência entre os profissionais da sua importância.
Hoje ela atende em dois consultórios particulares e em domicílio, sem vínculo CLT, para priorizar o nascimento, que não respeita horário. Escolhe acompanhar três ou quatro partos por mês, e raramente manda backup. Prioriza a saúde mental, a academia e as viagens. "Não tem a ver sobre dinheiro, tem a ver sobre valor." E, para quem acompanha nascimento, deixa o recado: "Para cuidar do outro, a gente precisa cuidar de nós mesmos."
A Karina também diminuiu o número de mulheres que acompanha por mês. A conclusão das duas vale para qualquer profissional do parto: qualidade de atendimento não é agenda cheia. Quem acompanha mulheres demais acaba chegando só na hora em que o bebê já está nascendo.
O que fica
A jornada da Aline vai de um trabalho de conclusão recusado por falta de estudos até uma UBS que hoje tem fisioterapia pélvica, e dali para a cena do parto, onde ela aprendeu que o melhor uso das mãos, às vezes, é não usá-las. No caminho, a certeza de que nenhum profissional faz tudo sozinho, e de que a fisioterapia tem lugar nessa equipe.
O fisioterapeuta é um profissional que faz parte desse mundo do nascimento, porque nascimento também é muito biomecânica.
A Aline está no Instagram como @alineambrosiofisio.
Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.
Conheça o Instituto Poder do Partejar e siga a gente no Instagram.


