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A jornada da pediatra: da UTI neonatal à sala de parto, e o que a faculdade não ensina

Por Karina Fernandes Trevisan11 min de leitura

Quando chegou a vez de parir, Luiza Guimarães, médica pediatra e neonatologista, fez um pedido à própria obstetra.

Você esquece que eu sou médica. Eu quero ser parturiente. Eu quero ficar doida, eu quero sentir a contração, eu quero chorar, eu quero dar risada, eu quero querer desistir. A partir do momento em que você identificar algum risco, você vai olhar nos meus olhos e vai falar. A responsabilidade da assistência é sua.

Ela escolheu pessoas em quem confiava e entregou o cuidado a elas. Teve uma indução, cinco horas de dilatação, analgesia no fim e um parto vaginal. "Foi muito transformador. Você sai completamente do controle racional da vida."

A história é do quarto episódio do PartoCast, em que Karina Trevisan conversa com a Luiza, pediatra dos filhos dela e parceira de sala de parto há anos, sobre a jornada da pediatra. É a história de uma médica que entrou pela UTI neonatal e pelo pronto-socorro, deixou o plantão para viver do consultório e hoje é a pediatra que sustenta um expulsivo prolongado sem pôr a luva antes da hora.

"Fazer a mãe se apaixonar pelo filho"

A Luiza não lembra exatamente como escolheu a medicina. Lembra da mãe, psicanalista, mãe de quatro, e do cuidado como coisa de família. A pediatria veio depois, e veio de um tio neonatologista. No terceiro ano da faculdade, ele a levou a uma maternidade para assistir a partos e conhecer a UTI neonatal. Havia um bebê grave, com uma síndrome e várias alterações físicas, e o tio disse uma frase que ela nunca mais esqueceu.

A melhor coisa que a gente pode fazer pela criança é fazer a mãe se apaixonar por ela. Porque a mãe que se apaixona pelo filho vai mover mundos e fundos para cuidar dele pelo resto da vida.

Na faculdade ela foi da liga de ginecologia e obstetrícia e achava que iria para a obstetrícia. No internato, percebeu que se interessava muito mais pelo bebê que saía do que pela mulher. "Quando você constrói essa relação com a criança, é muito gostoso. É tão genuíno."

Ela também se pergunta por que tão poucos colegas fazem a mesma escolha. A resposta dela é dura: a medicina está indo para um lado comercial, e a rede social vende a ideia de que dá para trabalhar pouco e ganhar fácil. A pediatria é o oposto disso. "A criança fica doente no domingo, fica doente na segunda de madrugada. Quando você se dispõe a cuidar dessa família, não tem hora."

Pronto-socorro, UTI e luto

Formada, a Luiza trabalhou de dia num posto de saúde e à noite em pronto-socorro, pensando em juntar dinheiro para o consultório. Durou dois anos. "É um ritmo frenético. As pessoas chegam fragilizadas, preocupadas, querem ser atendidas na hora." Procurou uma subespecialidade e entrou na residência de neonatologia, que fez de 2016 a 2018.

A UTI nunca foi a cara dela. "Eu gosto muito mais de trabalhar com promoção de saúde do que com o paciente super grave." E na UTI neonatal o luto está presente de um jeito que a formação não prepara. Ela teve aulas sobre luto perinatal durante a residência, e considera isso raro e necessário.

Quanto mais tempo de trabalho você tiver, eventualmente isso vai acontecer. A gente não é Deus, a gente não controla todas as variáveis. A gente faz o melhor que pode. E quando acontece o pior cenário, a gente tem que saber se controlar um pouco para acolher essa família.

A Karina completa: o luto é da família, mas é da equipe também. "Se a gente não trabalha luto perinatal, a gente é muito impactada."

Da UTI à sala de parto

O primeiro parto que a Luiza atendeu como pediatra particular foi de uma amiga obstetra, no lugar de uma colega que precisou viajar. Ela estava se formando. "Pensei: Jesus, Maria, José, estou me formando agora e vou pegar essa responsabilidade?" Foi uma cesárea intraparto, a bebê precisou de alguns cuidados, e deu certo.

Em 2019 veio o convite que mudou o rumo: uma obstetra que trabalhava numa equipe de parto humanizado ligou porque a pediatra do grupo ia se mudar do país. A Luiza dava plantão num hospital público grande, com vinte partos por plantão e quarenta bebês no alojamento conjunto. Chamou uma colega de residência para não entrar sozinha e foi conhecer o modelo.

Nunca mais deixei. Não sei se foi Deus, se foi o destino, se foi o universo que me trouxe essa possibilidade.

"Foi a sua vida que pediu por isso", responde a Karina. "A gente busca aquilo que faz sentido para a gente."

Sair do plantão

A Luiza deixou o hospital público em fevereiro de 2024, pouco antes de a filha fazer dois anos. Foi uma saída custosa, e ela não romantiza. O plantão tem horário para entrar e sair, valor fixo, vínculo. "Traz uma segurança financeira. E no SUS você sente que está fazendo alguma coisa pela sociedade." O consultório é outra coisa: quem perde o convênio não paga, quem fica sem dinheiro some, e é preciso captar pacientes o tempo todo.

A gente trabalha com venda. A gente vende nosso serviço. É um fato.

O que ela ganhou foi o que o plantão não dá. Leva a filha à escola todas as manhãs, começa a atender às oito e meia, reorganiza a agenda quando há uma atividade na escola.

Eu ganho menos? Ganho menos. Mas eu trabalho menos. Eu não saio mais de casa para fazer um plantão a uma hora e meia de distância, ficar doze horas e voltar podre, com a minha filha dormindo.

A Karina reconhece o mesmo caminho. Ela se afastou da assistência a parto por um tempo, pensou em entrar em algum lugar fixo, e concluiu que não fazia sentido. "Ontem eu atendi cinco gestantes à tarde, num lugar gostoso, num modelo que cabe dentro daquilo em que eu acredito." O particular, dizem as duas, chama pela possibilidade de alavancar financeiramente, e aí a pessoa assume tudo. "Não se sustenta por cinco, dez anos."

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O que cansa não é só a madrugada. É a sensação de nunca poder desligar: o celular que não pode ficar sem bateria nem no silencioso, a mensagem do domingo à tarde, o áudio de cinco segundos com a criança tossindo e a pergunta "o que você acha que é?".

Eu não recebi a minha bola de cristal na faculdade de medicina.

A Luiza conta que, nos últimos cinco anos, viu uma leva de colegas pediatras com consultório estabelecido fechar as portas por burnout, por causa desse tipo de demanda. E lembra que responder à distância é uma responsabilidade enorme: uma resposta rápida só para se livrar da mensagem pode fazer a família deixar de procurar um atendimento que era necessário. "Parece que tudo na vida é um iFood. Tudo é entregue em cinco minutos, nada precisa de raciocínio."

Não é porque você pagou a consulta que você comprou a alma da pessoa para todo o sempre.

Como a pediatra vê o parto normal

A Karina faz a pergunta que muita enfermeira obstetra gostaria de fazer a um pediatra: como você vê o parto normal, sabendo que muitos pediatras não o recomendam? A resposta da Luiza não tem meias palavras. Com uma equipe que assiste, observa, auxilia se preciso e não interfere se não for preciso, o parto vaginal é a via fisiológica e a melhor via para a criança e para a mãe. Uma pequena taxa de cesáreas é necessária para algumas situações, e isso tem dados.

Essa loucura de todos os partos serem instrumentalizados para admitir risco não existe, porque a gente vê bebês que não nascem bem em cesáreas agendadas.

Ela diz que qualquer pessoa que estude a fundo as boas práticas, da Organização Mundial da Saúde à Sociedade Brasileira de Pediatria, chega à mesma conclusão. As recomendações da OMS para uma experiência positiva de parto, de 2018, são o documento de referência.

O mesmo raciocínio vale para a criança depois do parto. A pediatria, para ela, é promoção de saúde, não hipermedicalização. Whey para criança, xarope para tosse, vinte e cinco suplementos da farmácia de manipulação: "a criança precisa comer comida, dormir bem, fazer exercício e ter contato com a natureza". Num congresso de neonatologia, brinca ela, a propaganda é de antitérmico e de uma vacina; em outras especialidades a indústria tem muito mais para vender.

O que a faculdade não ensina

Quando se cuida de uma criança saudável no consultório, aparece um mundo que a faculdade não mostrou: o puerpério, a construção da maternidade e da paternidade, o comportamento normal de um bebê. "A medicina que a gente aprende é pautada em diagnóstico, doença e tratamento." A Luiza foi estudar introdução alimentar, criação com apego e educação positiva, e diz que a própria maternidade transformou a prática dela.

Às mães que chegam fragilizadas, com dúvidas sobre berço, peito, mamadeira e rotina, ela responde sempre a mesma coisa.

Quanto mais eu estudo, quanto mais eu vivo, eu entendo que a única coisa imprescindível é ter afeto. O resto a gente vai se ajeitar, como a criança quiser.

Isso vale até para a cama compartilhada. "Quem decide se vai ter cama compartilhada é o bebê." Há bebês que querem colo, sling e contato o tempo todo, e há bebês calorentos que dormem melhor sozinhos no berço. O trabalho dos pais é olhar para o próprio filho, e não para o que a internet, a vizinha ou a regra dizem.

Sustentar a escolha entre colegas

Parir por via vaginal não é a primeira escolha da maioria dos profissionais médicos, e a Karina pergunta como a Luiza sustentou a própria decisão entre colegas e amigos. Ela atribui o medo à formação. "É uma formação muito feia. Ela não traz aquilo que a gente pode ser." O marido, também médico, embarcou quieto: "O corpo é meu. Ele jamais tentaria impor uma coisa no meu corpo."

A Karina acrescenta um dado da própria experiência: ela adora atender parto de médicas e enfermeiras, e as pediatras e obstetras das equipes com quem trabalha pariram.

A gente costuma oferecer da água que a gente bebe.

Parto domiciliar, visto por quem fica de backup

Pessoalmente, a Luiza diz que a veia médica não a deixaria ter um parto em casa. Mas ela é o backup de pediatria dos partos domiciliares da equipe da Karina: atende a ligação, faz a visita pós-parto, vai ao hospital se houver transferência. A pergunta da Karina é como ela chegou a essa disposição, quando tantos médicos dizem nas redes que são absolutamente contra.

O parto, na esmagadora maioria das vezes, é um momento de saúde, não é um momento de doença.

O raciocínio dela é o mesmo que vale para qualquer criança: não precisa ter médico na escola, mas precisa haver um plano B se ela cair e bater a cabeça. Se o pré-natal está bem, se a equipe é responsável e se existe o plano da transferência, a família tem o direito de viver o parto como achar melhor. E o neonatologista precisa estar muito bem treinado para agir quando o bebê não respira no primeiro minuto. "Mas o bom profissional é aquele que sabe, muitas vezes, quando não fazer nada."

A calma do pediatra

A Karina descreve a Luiza em sala de parto: não corta cordão, faz ventilação no pele a pele quando precisa, aceita atender parto pélvico, sustenta um expulsivo prolongado sem se mexer. "A gente olha para a cara da Luiza, a Luiza está pleníssima, e fala: ótimo, está tudo bem."

A Luiza explica de onde vem a calma: equipe de confiança, família bem informada e tempo de prática. E usa a imagem do avião.

Quando o avião entra em turbulência, você olha para quem? Para a comissária. Se a comissária está plena, você está plena. Se o médico que está treinado para dar conta da intercorrência não está calmo, alguma coisa está errada.

Ela também combina com os pais o que não é tarefa deles: avisar a equipe, explicar a indução, decidir a hora de ir. Isso é da obstetra e da enfermeira, que se comunicam entre si. "Vocês têm que viver a contração, um apoiar o outro, cuidar dos medos de vocês."

O que fica

A jornada da Luiza vai do pronto-socorro e da UTI neonatal a uma prática em que a pediatra entra na sala de parto para observar, não para intervir por hábito. No meio disso, estudo, muito estudo, e uma mudança de vida que custou segurança e devolveu tempo.

A ideia que atravessa a conversa é a mesma dos episódios anteriores, vista agora do lado do bebê: ninguém assiste parto sozinho, e quem assiste precisa saber quando não fazer nada. A Luiza também dá aula na pós-graduação do Instituto, e é esse olhar de equipe que ela leva para a sala de aula.

Ouça o episódio completo: no YouTube ou no Spotify. O PartoCast é o podcast do Instituto Poder do Partejar, com conversas sobre a prática de quem atende parto. Todos os episódios ficam reunidos em /partocast.

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