Metilergometrina
Também conhecido como Maleato de metilergometrina, Metilergonovina, Ergometrina, Methergin.
Uterotônico derivado do ergot usado como segunda linha na hemorragia pós-parto, contraindicado em hipertensão, pré-eclâmpsia e doença cardiovascular.
Definição clínica
A metilergometrina é um alcaloide semissintético derivado do ergot, empregado como uterotônico de segunda linha no manejo da hemorragia pós-parto por atonia uterina. Atua sobre receptores alfa-adrenérgicos e serotoninérgicos do músculo liso, produzindo contração uterina sustentada e tetânica, diferente da contração rítmica induzida pela ocitocina. Esse padrão contrátil prolongado é o que a torna útil quando a resposta ao uterotônico de primeira linha foi insuficiente.
A mesma ação sobre o músculo liso vascular explica seu principal risco: vasoconstrição sistêmica, com elevação da pressão arterial. Daí decorre o ponto que mais protege a vida da mulher na prática assistencial: a metilergometrina é contraindicada nas seguintes situações:
- Hipertensão arterial, crônica ou gestacional;
- Pré-eclâmpsia e eclâmpsia, em qualquer grau de gravidade, pelo risco de crise hipertensiva, acidente vascular cerebral e convulsão;
- Doença cardiovascular, coronariopatia e doença vascular periférica;
- Sepse e hipersensibilidade aos alcaloides do ergot.
Como muitas hemorragias ocorrem justamente em gestações hipertensivas, a checagem do quadro pressórico antes da administração não é formalidade: é a barreira de segurança que impede um evento cerebrovascular grave em uma mulher já sangrando. Nesses casos, o manejo segue com ocitocina, com o antifibrinolítico indicado e com medidas mecânicas e cirúrgicas, conforme prescrição e protocolo institucional.
Os efeitos adversos esperados incluem náusea, vômito, cefaleia, cólica intensa pela contração sustentada, elevação pressórica e, mais raramente, vasoespasmo periférico. A metilergometrina também não é indicada para indução ou condução do trabalho de parto e não deve ser administrada antes do desprendimento fetal, pela contração tetânica que provoca. Seu uso rotineiro como uterotônico profilático de primeira escolha não é recomendado, permanecendo a ocitocina como agente inicial no manejo ativo do terceiro período.
Outro cuidado relevante é a conservação: como os alcaloides do ergot são sensíveis à luz e ao calor, a perda de potência por armazenamento inadequado pode se manifestar como falha terapêutica aparente diante de um sangramento que segue ativo. Por isso a checagem das condições de guarda do carro de emergência obstétrica faz parte da segurança do manejo. Na lactação, a metilergometrina exige avaliação individualizada da equipe, e a amamentação não deve ser suspensa de forma automática após seu uso.
Na assistência
- Verificar e registrar a pressão arterial antes de qualquer administração e conferir ativamente no prontuário história de hipertensão, pré-eclâmpsia ou doença cardiovascular, recusando a administração e comunicando a equipe diante de contraindicação.
- Administrar somente sob prescrição médica e conforme protocolo institucional, após confirmação de que a ocitocina e as medidas mecânicas de primeira linha já foram aplicadas e o sangramento persiste.
- Monitorar a pressão arterial de forma seriada após a administração, além de frequência cardíaca, nível de consciência, cefaleia, alterações visuais e perfusão periférica.
- Avaliar a resposta uterina pela palpação do tônus e pela quantificação objetiva da perda sanguínea, comunicando a persistência do sangramento para escalonamento imediato do manejo.
- Orientar a mulher sobre a cólica intensa esperada e sobre náusea e vômito, oferecendo medidas de conforto e mantendo o acompanhante informado durante a emergência.
Protocolo IPDP: nenhuma dose de metilergometrina é preparada sem que a pressão arterial e a história hipertensiva tenham sido verificadas na hora; a enfermeira obstetra é responsável por essa barreira de segurança, por documentar o valor pressórico aferido antes e depois, por escalonar o manejo com a equipe e por manter a ocitocina como primeira linha no terceiro período.
O que dizem as evidências
A OMS, o Ministério da Saúde e a FEBRASGO mantêm a ocitocina como uterotônico de primeira linha e reservam os alcaloides do ergot, como a metilergometrina, para a persistência do sangramento, com contraindicação formal em hipertensão, pré-eclâmpsia e doença cardiovascular.