Ácido tranexâmico
Também conhecido como Antifibrinolítico, Ácido tranexâmico intravenoso, TXA, Transamin.
Antifibrinolítico recomendado pela OMS como tratamento adjuvante da hemorragia pós-parto, com benefício dependente da administração precoce após o diagnóstico.
Definição clínica
O ácido tranexâmico é um agente antifibrinolítico sintético, derivado da lisina, que se liga aos sítios de ligação do plasminogênio e bloqueia sua conversão em plasmina. Ao impedir a degradação da fibrina, estabiliza o coágulo já formado e reduz a perda sanguínea. Não é um uterotônico: não contrai o útero e, portanto, não substitui a ocitocina, a massagem uterina nem qualquer etapa do manejo ativo do terceiro período.
Na obstetrícia, sua indicação central é o tratamento adjuvante da hemorragia pós-parto, tanto após parto vaginal quanto após cesárea, somando-se ao tratamento padrão e não o substituindo. O parto e o puerpério imediato cursam com ativação fisiológica da fibrinólise, o que ajuda a explicar o benefício do bloqueio farmacológico dessa via no sangramento estabelecido.
O ponto que define o resultado clínico é o tempo. O benefício do ácido tranexâmico é maior quando administrado precocemente após o diagnóstico da hemorragia, e diminui de forma progressiva à medida que o intervalo aumenta, deixando de ser demonstrável quando a administração é tardia. Isso desloca a atenção da equipe para o reconhecimento rápido do sangramento anormal e para a organização do serviço, já que o atraso costuma vir da demora em diagnosticar, e não do fármaco em si.
Do ponto de vista da segurança, os efeitos adversos mais comuns relacionam-se à velocidade da administração intravenosa, com náusea, hipotensão transitória e alterações visuais, motivo pelo qual a infusão deve seguir a velocidade estabelecida em protocolo. Deve ser usado com cautela em mulheres com história de evento tromboembólico e nas situações de insuficiência renal, sempre conforme prescrição e protocolo institucional.
- Indicação: hemorragia pós-parto diagnosticada, como adjuvante do tratamento padrão.
- Não indicação: substituir uterotônicos, dispensar a investigação da causa do sangramento ou postergar medidas mecânicas e cirúrgicas.
A recomendação atual é de uso amplo no sangramento estabelecido, independentemente da causa presumida e da via de parto, o que retira da equipe a tarefa de decidir se o caso é ou não elegível e transfere o esforço para diagnosticar rápido. Na prática assistencial brasileira, isso significa integrar o antifibrinolítico ao pacote de resposta à hemorragia já existente no serviço, com material reunido em carro ou maleta de emergência obstétrica, papéis definidos entre os profissionais e quantificação objetiva da perda desde o nascimento, e não estimativa visual.
Na assistência
- Reconhecer precocemente a hemorragia pós-parto por avaliação objetiva da perda sanguínea, com uso de saco coletor graduado, associada à vigilância de sinais vitais e do índice de choque.
- Acionar o protocolo institucional de hemorragia assim que o diagnóstico for feito, comunicando a equipe médica e sinalizando explicitamente o horário do diagnóstico, que baliza a janela de administração.
- Preparar e administrar o ácido tranexâmico sob prescrição, por via intravenosa e na velocidade de infusão definida em protocolo, evitando administração rápida pelo risco de hipotensão e sintomas visuais.
- Manter em paralelo as medidas de primeira linha, como massagem uterina, uterotônicos prescritos, esvaziamento vesical e investigação da causa do sangramento, sem tratar o antifibrinolítico como conduta isolada.
- Registrar horário do diagnóstico, horário da administração, perda estimada, resposta clínica e sinais adversos, e monitorar a mulher quanto a sinais de tromboembolismo no puerpério.
Protocolo IPDP: o ganho terapêutico depende de minutos, portanto a enfermeira obstetra é treinada para quantificar a perda sanguínea de forma objetiva, disparar o protocolo sem esperar deterioração hemodinâmica e documentar com precisão o intervalo entre diagnóstico e administração, mantendo o ácido tranexâmico como adjuvante dentro de um manejo que continua sendo mecânico, uterotônico e etiológico.
O que dizem as evidências
A OMS recomenda o ácido tranexâmico como tratamento adjuvante para todas as mulheres com hemorragia pós-parto, independentemente da causa e da via de parto, e enfatiza que a administração deve ser a mais precoce possível após o diagnóstico, pois o benefício se reduz com o atraso.