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Toxoplasmose na gestação

Também conhecido como toxoplasmose gestacional, infecção por Toxoplasma gondii na gravidez, toxoplasmose congênita.

Infecção pelo protozoário Toxoplasma gondii adquirida durante a gestação, com risco de transmissão vertical e de comprometimento ocular e neurológico do feto.

Definição clínica

A toxoplasmose na gestação é a infecção materna pelo protozoário *Toxoplasma gondii*, adquirida pela ingestão de carne crua ou malcozida contendo cistos, pelo consumo de água ou alimentos contaminados por oocistos e pelo contato com fezes de gatos infectados. Na mulher imunocompetente, a infecção aguda costuma ser assintomática ou apresentar sintomas inespecíficos, como febre baixa, mal-estar e linfonodomegalia cervical, o que torna o diagnóstico dependente do rastreio sorológico e não do quadro clínico.

O risco relevante é a transmissão vertical. A probabilidade de passagem transplacentária aumenta com a idade gestacional, sendo menor no primeiro trimestre e maior no terceiro; a gravidade das lesões fetais faz o caminho inverso, sendo maior quanto mais precoce a infecção. A toxoplasmose congênita pode cursar com coriorretinite, calcificações intracranianas, hidrocefalia, restrição de crescimento, hepatoesplenomegalia e alterações do neurodesenvolvimento, e boa parte dos recém-nascidos é assintomática ao nascer, manifestando sequelas oculares meses ou anos depois.

O rastreio sorológico é a base da conduta no pré-natal:

  • Solicitar IgG e IgM anti-toxoplasma na primeira consulta;
  • IgG reagente e IgM não reagente indicam infecção antiga e imunidade, sem necessidade de repetir o exame;
  • IgG e IgM não reagentes indicam gestante suscetível, que deve repetir a sorologia a cada trimestre, ou mensalmente onde o protocolo local assim determinar, e receber orientação de prevenção primária;
  • IgM reagente exige confirmação e investigação do momento da infecção, com teste de avidez de IgG, que quando alto antes de 16 semanas afasta infecção recente na gestação;
  • Suspeita de infecção materna aguda indica investigação de infecção fetal por PCR em líquido amniótico e vigilância ultrassonográfica seriada.

Confirmada ou fortemente suspeitada a infecção materna aguda, o tratamento é iniciado imediatamente com espiramicina, que reduz o risco de passagem para o feto. Quando há infecção fetal comprovada, o esquema é modificado pela equipe médica para a associação tríplice de sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico, não utilizada no primeiro trimestre. Todo recém-nascido exposto precisa de investigação e seguimento, incluindo avaliação oftalmológica, mesmo quando assintomático.

Na assistência

  • Solicitar e interpretar a sorologia IgG e IgM na primeira consulta de pré-natal, classificando a gestante como imune, suscetível ou com suspeita de infecção aguda, e registrar essa classificação no prontuário.
  • Repetir a sorologia a cada trimestre nas gestantes suscetíveis, conforme o protocolo local, sem deixar a repetição depender de sintomas.
  • Orientar prevenção primária de forma concreta: consumir carne bem cozida, lavar vegetais e frutas em água tratada, higienizar mãos e utensílios após manipular carne crua, beber água tratada ou fervida, usar luvas na jardinagem e delegar a limpeza da caixa de areia do gato, que pode permanecer em casa.
  • Encaminhar sem retardo ao pré-natal de alto risco diante de IgM reagente ou de soroconversão, para início imediato da terapêutica e investigação de infecção fetal.
  • Garantir a comunicação do status sorológico materno à maternidade e ao serviço de puericultura, assegurando investigação e seguimento oftalmológico do recém-nascido exposto.

Protocolo IPDP: a enfermeira obstetra trata o rastreio da toxoplasmose como vigilância ativa e não como exame de rotina esquecido no prontuário, orienta a prevenção primária desde a primeira consulta sem culpabilizar a mulher pelo contato com animais e encaminha a soroconversão no mesmo dia em que a identifica.

O que dizem as evidências

O Ministério da Saúde recomenda o rastreamento sorológico de toda gestante na primeira consulta e a repetição periódica nas suscetíveis, com início imediato de espiramicina diante de infecção aguda materna para reduzir a transmissão vertical. A toxoplasmose gestacional e a congênita são de notificação compulsória.

Fonte

Ministério da Saúde (Protocolo de Notificação e Investigação de Toxoplasmose Gestacional e Congênita; Manual de Gestação de Alto Risco); FEBRASGO; OMS; COFEN 516/2016; Sociedade Brasileira de Pediatria.