HIV na gestação
Também conhecido como gestante vivendo com HIV, infecção pelo HIV na gravidez, prevenção da transmissão vertical do HIV.
Infecção pelo vírus da imunodeficiência humana em mulher gestante, cujo manejo tem como eixo a prevenção da transmissão vertical durante a gestação, o parto e o pós-parto.
Definição clínica
A infecção pelo HIV na gestação é hoje uma condição de manejo protocolar cujo desfecho depende quase inteiramente da qualidade do cuidado ofertado. Com diagnóstico oportuno, terapia antirretroviral iniciada precocemente e carga viral suprimida, o risco de transmissão vertical cai para menos de 1 por cento; sem qualquer intervenção, esse risco situa-se em torno de 15 a 45 por cento. A transmissão pode ocorrer durante a gestação, no periparto, que concentra a maior parte dos casos, e pela amamentação.
A testagem é oferecida a toda gestante na primeira consulta de pré-natal, repetida no segundo e no terceiro trimestre, e novamente na admissão para o parto, com teste rápido, incluindo as mulheres sem pré-natal. Diante de diagnóstico confirmado, a terapia antirretroviral está indicada para todas as gestantes, independentemente da contagem de linfócitos T CD4 ou da presença de sintomas, e deve ser mantida por toda a vida. O acompanhamento inclui carga viral e CD4 seriados, com uma carga viral obrigatória a partir da 34ª semana, que orienta a via de parto.
Os pontos de decisão do periparto são:
- Carga viral indetectável ou abaixo de 1.000 cópias por mililitro após 34 semanas: a via de parto segue indicação obstétrica, e o parto vaginal está indicado quando não há contraindicação;
- Carga viral acima de 1.000 cópias por mililitro ou desconhecida após 34 semanas: indica-se cesárea eletiva com 38 semanas, com membranas íntegras e fora de trabalho de parto;
- Zidovudina endovenosa intraparto conforme a carga viral e o protocolo vigente;
- Evitar procedimentos que aumentem a exposição do feto ao sangue materno, como amniotomia precoce, toques vaginais repetidos, monitorização invasiva, episiotomia de rotina e parto instrumental sem indicação;
- Profilaxia antirretroviral do recém-nascido iniciada nas primeiras horas de vida.
Sobre o aleitamento, a diretriz brasileira vigente é explícita: a amamentação é contraindicada para toda mulher vivendo com HIV, mesmo com carga viral indetectável e em uso regular de antirretrovirais. Também estão contraindicados o aleitamento cruzado, o uso de leite humano não pasteurizado e a alimentação com leite materno da própria mãe. O Ministério da Saúde garante a inibição da lactação e o fornecimento gratuito de fórmula láctea infantil até pelo menos os seis meses de vida.
Na assistência
- Ofertar e realizar a testagem para HIV na primeira consulta, no segundo e no terceiro trimestre, e na admissão para o parto, com aconselhamento pré e pós-teste e sem exigir jejum, encaminhamento médico ou consentimento de terceiros.
- Vincular imediatamente a gestante com diagnóstico confirmado ao serviço de assistência especializada, mantendo o pré-natal compartilhado e monitorando adesão à terapia antirretroviral em cada consulta.
- Acompanhar a solicitação e o resultado da carga viral a partir da 34ª semana e assegurar que esse resultado chegue à maternidade, pois é ele que orienta a via de parto.
- Informar, ainda no pré-natal e de forma acolhedora, que a amamentação é contraindicada no Brasil para mulheres vivendo com HIV, apresentar a inibição da lactação e a fórmula fornecida pelo SUS, e preparar a mulher para essa decisão antes do nascimento.
- Garantir no parto as práticas que reduzem exposição, evitando amniotomia precoce, toques repetidos e episiotomia de rotina, e assegurar o início da profilaxia do recém-nascido nas primeiras horas.
Protocolo IPDP: a enfermeira obstetra sustenta que gestação com HIV bem acompanhada comporta parto normal e cuidado respeitoso, protege a mulher do estigma e da exposição do diagnóstico em ambiente coletivo, e antecipa a conversa sobre não amamentar no pré-natal para que ela não aconteça pela primeira vez na sala de parto.
O que dizem as evidências
O Ministério da Saúde recomenda terapia antirretroviral para todas as gestantes vivendo com HIV, definição da via de parto pela carga viral aferida a partir da 34ª semana e profilaxia do recém-nascido. No Brasil, a amamentação, o aleitamento cruzado e o uso de leite humano não pasteurizado são contraindicados, com fornecimento gratuito de fórmula láctea e inibição da lactação.